Lesões na Corrida

O assunto Lesões na Corrida pode ser percorrido por várias rotas e este texto vai abordar duas delas: uma de maneira objetiva, pois já foi bastante percorrida; as lesões típicas, com suas regiões e pontos anatômicos de manifestação, e outra com maior profundidade, porque será o nosso foco; a Dinâmica das Cargas de Treino como fator predisponente original ou como precursora, quando atua como gatilho de um desequilíbrio, condição preexistente para as lesões.

por Cláudio Bertolino

Juntamente com o aumento da quantidade de praticantes da corrida, foi aumentando o acometimento multifatorial pelas lesões, as investigações para melhor conhece-las na especialidade, e as ações a fim de evita-las. Sobre o último tópico, a Prevenção, pode-se interceder com algum sucesso, pois, geralmente as lesões dos corredores de rua são geradas por micro-traumas, de desenvolvimento lento, desconforto local que precede a dor e intensidade gradativa da mesma, portanto, a grande maioria das lesões desses atletas envia sinais antecipados e um lapso de tempo para ajustes e correções, quando a experiência e percepção aguçada de treinador/atleta podem interceder fazendo a diferença entre um processo rápido de reversão da situação garantindo a continuidade normal do processo, e o agravamento da situação, com perdas e outros empenhos no processo de treinos.

E o que propriamente seria a dinâmica das cargas de treino?...Essa variável é a essência do planejamento; elege, hierarquiza, combina, distribui, qualifica, quantifica, temporiza e modifica os diversos tipos de cargas dos treinos obedecendo os princípios científicos do treinamento desportivo. Ela regula as individualidades, o que pode e o que não se recomenda para os treinos, as etapas de evolução, manutenção, regressão e transição dentro do processo; em ultima instância, concorre para extrair o melhor da forma no ponto em que se precisa preservando o indivíduo ao máximo, sendo também, na presença de equívocos, um dos principais fatores que podem desencadear lesões durante o processo de treinos, tratando-se aqui da corrida de resistência, mas verificado em qualquer modalidade esportiva, nível ou objetivo do praticante.

Uma boa equação da Dinâmica das Cargas é responsável não só por ótimos resultados, mas também por baixos índices de lesões. 

Lesões Típicas: Regiões e Pontos de Ocorrência

Verificadas em várias regiões da parte inferior do corpo, as lesões que mais acometem os praticantes da corrida são também frequentes em três articulações: quadril, joelho e tornozelo.

Nas costas, a lombalgia, no quadril, a síndrome do piriforme, as bursites e tendinite de glúteo médio, nas pernas os estiramentos, distensões musculares (posteriores das coxas e panturrilhas), as periostites (tíbia) e fraturas por estresse (tíbia e fêmur) nos joelhos, a condromalácia patelar e a síndrome da banda iliotibial, nos pés, fascite plantar, tendinite no aquiles e fratura por estresse no calcâneo.

A Dinâmica das Cargas e as Lesões
Cargas Desproporcionais

Cabem aqui os conceitos de carga externa e carga interna. Carga externa representa os valores convencionados, estabelecidos pelo plano; 45’ de corrida contínua a 6’00”/km, 22 kg no supino, 8 x 1000m a 4’40”, etc...ou seja, as medidas que o teu treinador prescreveu na tua planilha ou sugeriu verbalmente. Carga interna é o que esses valores representam para o teu organismo na hora da execução: desde as inócuas, passando por aquelas na medida, as que nos interessam é claro, chegando às extenuantes insuportáveis, as quais o métier costumava chamar de predatórias, e a seus prescritores, secretamente, de quebra-nozes.

Os atletas experimentados variavelmente conseguem executar tais cargas, ao menos por algum tempo, já que seu parâmetro de desafios e resultados é de extremos, sua predisposição mental e sua relação com esforço são também muito diferentes. Tais níveis de cargas são praticadas até mais frequentemente do que podemos pensar, apesar da incoerência, porquê o empenho por super capacitar provisoriamente, quase sempre acarretará altos riscos de incapacitar precocemente. No setor amadorístico então, não há justificativa alguma, a não ser a imperícia, para tal procedimento, e tanto neste quanto no setor profissionalizado, a insistência dessa condição trará uma fatura, pode até tardar.

Estímulos Desconexos

Um estímulo diferente dos padrões momentâneos praticados, em natureza e magnitude, geralmente na sua introdução ou reintrodução, como nos casos em que é aplicado com grandes lapsos de tempo, tanto possui a dificuldade de assimilação estrutural/orgânica do que se pretende com ele, como pode gerar um impacto negativo ao nível de lesão. São unidades fora do contexto, as vezes verdadeiras invencionices comprometendo o equilíbrio do processo, depletando energia, tomando tempo, concorrendo com capacidades importantes e dificultando a regeneração de todos os sistemas.

Cargas Conflitantes
Cargas Conflitantes

Pense em cargas subsequentes como interação medicamentosa. Assim como temos um medicamento com poder de anular indesejadamente o efeito de outro, e ainda pior, pode tal administração concomitante causar efeitos danosos ao organismo, no treinamento desportivo é possível impor cargas consecutivas, de diferentes naturezas e grandezas ou não, mas conflitantes entre si, tendo como reguladores o tempo de recuperação e a ordem da aplicação entre as mesmas, ocorrendo que, a prática de outros esportes, diferentes solicitações musculoesqueléticas pontuais, e até mesmo sessões alongamento muscular ou de flexibilidade mal colocadas entram nessa conta.

Então, ainda que um planejamento de âmbito amador não sugira muito treino ao praticante, mas o suficiente em termos de volume e intensidade, ele deve também contemplar a lógica fisiológica, onde a natureza e ordem de aplicação das cargas, e períodos da preparação e de recuperação entre estímulos, resultando que o plano ideal respeita as quantidades das cargas, geral e estratificadas; uma variável pouco complexa, assim como a qualidade delas, verificada pelo conteúdo e gerenciamento geral deste, uma variável algo complexa, responsável por evitar as contraposições que podem gerar lesões.  

Gradação das Cargas

Imagine alguém aprendendo a andar de bicicleta na quarta, porque pretende no sábado, atravessar pedalando uma cidade de grande porte e conhece o caminho só por mapa...vai treinar até na sexta e deve conseguir, já que está decidida...mas não se pode garantir o quanto estará adaptada ao equipamento, qual o real impacto da distância percorrida no organismo ou nos joelhos, e como se sairá no trânsito.

A aplicação repentina de um bloco ou de cargas isoladas de magnitude muito superiores às praticadas, portanto em desrespeito à gradação, é também um caminho obscuro, sem as chances adaptativas, produto da queima de etapas e não obstante se cumpra, as consequências são desconhecidas, porque o organismo e as estruturas do sistema de locomoção nem sempre respondem bem aos sobressaltos.  

Estamos falando da carência da maturação estrutural e orgânica para enfrentar esses desafios, e a participação em distâncias maiores de provas sem a devida gradação também enquadra-se em situação abrupta.

A face oposta da gradação das cargas são os Padrões Constantes. A utilização dos estímulos repetitivos ou de pequenos blocos deles não raramente são observados entre os praticantes da corrida sem orientação especializada, e já nos níveis moderados também podem estressar os sistemas orgânico e mental, com poderes de gerar lesões ou no mínimo, impedir aquisições viáveis de performance para as competições ou mesmo resultados esperados para a estética, onde o metabolismo passa a modular o balanço da ingestão calórica e gasto energético de forma desfavorável e não reage à altura para uma possível perda de peso desejada.

Lembrando um jogo de xadrez, onde diferentes peças desempenham diferentes funções, com alguma liberdade de escolha para os lances que se articulam e determinam um caminho, com possibilidades de previsões reativas, um plano de treinamento de corrida contém vários métodos, gerais e específicos para melhorar cada uma das capacidades necessárias na preparação do corredor de resistência, e inúmeras combinações entre eles, o que confere certa flexibilidade no planejamento, limitada pelos fundamentos teóricos e características individuais, onde a subjetividade tem pouco espaço, e a sucessão de erros provocará perdas.

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