Fair Play, Empatia e Negócios à Parte.

por: Cláudio Bertolino

Não é de hoje que o Fair Play circunda o mundo esportivo. A expressão “jogo limpo” é uma filosofia criada em 1896 durante os primeiros Jogos Olímpicos da era moderna quando o então organizador Barão de Coubertin o idealizou assim: “Não pode haver jogo sem fair play. O principal objetivo da vida não é vitória, mas a luta.”, e desde então, isso se tornou usual em muitos outros campos, como por exemplo, o dos negócios.

 

Este conceito está ligado à ética, onde o esportista deve procurar a disputa de maneira justa; sem o prejuízo do concorrente de maneira proposital, pois que do contrário, uma regra factual ou moral estaria sendo quebrada.

 

Acontece que o conceito é amplo, tem extensões e ao final delas, a Ética, abrindo espaço ao meio termo... Mas como assim, se regra é regra e moral também é uma só?... Como poderemos ver mais adiante, ocorre quando o detentor da vantagem é quem comete o erro e a perde por isso; quando diferentes atitudes e interpretações decorrentes destas podem surgir.

 

E assim, quem entra no “jogo” em determinadas situações é a Empatia com a devolução da vantagem ou o sinto muito, mas, “Negócios à Parte”, quando a disputa vale muita coisa, e neste caso, a quem imputar a culpa por um erro não estabelecido em regra?... E por parecer muito mais vinculada às regras do que às condutas facultativas do esporte, mais ao que se deve do ao que se pode fazer, a Ética é mais objetiva e não consta aqui como parte do título nem como destaque desse assunto.

 

Um dos casos mais emblemáticos de fair play com empatia aconteceu em dezembro de 2012, quando o espanhol Fernández Anaya chegando em segundo lugar numa corrida de cross-country, se depara com o queniano Abel Mutai, recém medalha de bronze nos 3.000m com obstáculos nos Jogos Olímpicos de Londres, parando antes da linha de chegada. Anaya deu um tapinha nas costas de Mutai, apontou-lhe a chegada e só então o queniano completou a prova como vencedor.

 

O episódio (vídeo abaixo) foi veiculado mundialmente por inúmeras vezes, contendo desde equívocos básicos ao chamar a competição de maratona, a interpretações diversas sobre a conduta do espanhol, que não resta dúvida foi grandiosa e poderá sempre ser mostrada como exemplar, mas tê-la como símbolo de honestidade, atitude de campeão, ética e integridade, como foi por diversas vezes, estaria mais para um julgamento particular, já que se ele seguisse rumo à vitória não estaria transgredindo à regra, e a vida seguiria com o queniano pagando pelo engano próprio... Mas enfim, o negócio aqui não é definir a conduta, mas exaltar a empatia.    

Em agosto de 1991 tivemos um belo exemplo de empatia motivada por patriotismo e amizade, quando a então URSS estava em processo de dissolução em 12 repúblicas independentes que ocorreria no mesmo ano, em 25 de dezembro. A um minuto da chegada dos 50 km da marcha atlética e já dentro do estádio, no 3º campeonato mundial de atletismo, o então soviético Aleksandr Pothasov (4º colocado em Seul 1988) com a vitória assegurada diminui o ritmo, se vira para trás, chama por gestos e espera seu compatriota e companheiro de treinos Andrey Perlov (que ganharia o ouro nos jogos olímpicos de Barcelona 1992), para chegarem abraçados lado a lado, simbolizando que a situação política desagregadora jamais alcançaria a união daqueles desportistas.

 

Tão juntos na linha de chegada (foto abaixo), o tempo de prova anotado teve uma diferença de apenas 0,01 segundo entre os atletas, a favor de Pothasov, declarado o vencedor, quase surgindo situação de medalha de ouro compartilhada com mudança das colocações porque pela regra, em caso empate absoluto nas provas de fundo, vençe quem vem de trás. No mundial seguinte, em Stuttgart 1993, Pothasov já competia pela Bielorrússia, e Perlov pela Rússia.

A chegada de Aleksandr Pothasov (1069) e Andrey Perlov (1066), com 3h53'09"

No mesmo mundial de atletismo em Tóquio 1991, na mesma prova com outra distância e alguns dias antes, o também soviético Mikhail Shchennikov, desde sempre um dos favoritos às provas de marcha (foi prata nos 50 km em Atlanta 1996), entra no estádio para ganhar os 20 km, cruza a linha e para comemorando; o italiano Maurizio Damilano, campeão olímpico em Moscou 1980, que entrara logo em seguida, inclusive tropeçando num bloco de partida esquecido na pista na primeira etapa classificatória da prova dos 100m, cruza a linha e continua… É que faltava a volta dentro do estádio que completaria o percurso. Damilano entendeu tudo, e marchando chamava a Shchennikov que retomou sem muito entender, para chegar em 2º lugar e Damilano que comemorou depois, comemorou melhor.

Os atletas Maurizio Damilano (de branco), venceu com 1h19"37" e Mikhail Shchennikov (de vermelho), 1h19'46", durante o percurso.

Sem entrar na questão sobre os traços de personalidade de Damilano e dos desdobramentos de mais essa relevante vitória em sua vida, que por exemplo, fortaleceu o seu nome no Hall da fama do atletismo da Itália, a conjuntura para um ouro mundial em qualquer uma das provas do atletismo é tão especial, difícil e trabalhosa, mas ele é tão particularmente valioso e gratificante, que o mais solidário dos atletas, atuando segundo as regras jamais renunciaria ao mesmo; foi o que fez o atleta em questão, embora naquela época a IAAF (Associação Internacional de Federações de Atletismo) ainda não desse um prêmio aos 03 primeiros colocados, com a diferença de U$ 20 mil entre os medalhistas. 

 

Uma competição do alto nível requer concentração e a entrega do atleta por completo, não permite os raros deslizes dessa ordem, já que nesse patamar um atleta experiente como o então soviético, tem o domínio de ritmo e tempo de prova pelo percurso, para saber que o minuto e meio relativo a uma volta não fecharia a conta do que vinha desenvolvendo durante sua performance naquele momento. 

 

Quem não se lembra da chegada classificada como espetacular, da última de São Silvestre, para ilustrar os negócios à parte no ramo das corridas e mais um descuido que gerou uma bela oportunidade de transformar o segundo colocado em campeão, com no mínimo 47 mil reais a mais pela diferença da premiação entre as colocações. A São Silvestre de 2019 é dos melhores casos para se mostrar que empatia tem hora, porque não é incondicional.

O queniano Kibiwott Kandie (71) reverteu, vencendo praticamente na linha de chegada com recorde da competição, ao ugandense Jacob Kiplimo (3)....Foto: Peter Leone

Tudo leva a crer a existência de limites para empatia ou fair play; temos que considerar a dependência do nível de excelência assim como o valor daquilo que estiver em disputa, variavelmente independentes do eventual protagonista. No esporte, não veremos um atleta abrir mão ou descer um degrau de um pódio olímpico ou mundial em nome do equívoco de outro, porém por sorte ainda teremos os raros espetáculos produzindo emoções, feito o evento sem tanta expressão, mas com a conduta grandiosa de Anaya.

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