Indicadores da Boa Prática da Corrida

por Cláudio Bertolino 

Num cenário onde a prática sistematizada da corrida direcionada à saúde, mas não raramente adquirindo contornos de performance, cresce sem distinção de localidades e outros fatores, pelo caráter de sua aparente simplicidade, dois indicadores se destacam, além de alguns sinais para revelar a boa prática dessa disciplina.

 

Onde a sistematização estiver presente, ou seja, uma frequência mínima semanal parte de um programa de médio ou longo prazo com estímulos condicionantes visando um ou vários objetivos com a corrida, haverá também a necessidade de fazê-lo conforme as bases científicas, com o tratamento de uma especialidade e assim sendo, não tão simples.

 

Os conteúdos do programa de treinos serão determinantes para o índice de Alcance dos Resultados esperados e pelos Índices de Lesões, os dois fatores de maior relevância no momento, assim como por alguns sinais importantes como: estado de estresse emocional, nível de fadiga orgânica, nível do desconforto musculoesquelético, disposição para comparecer e ou cumprir os treinos; tudo relacionado aos treinamentos cuja associação de alguns desses a outros mais, poderão configurar o nível de agressividade dos estímulos.

 

Para que haja modificações orgânicas positivas, naturalmente, os estímulos dos treinos são dotados de alguma agressividade, mas o ajuste fino sobre como extrair o máximo do aluno/atleta em cada momento da preparação respeitando limites é o que trará respostas sobre a eficácia do programa expressa por resultados no tempo razoável, com baixos índices de lesões e ausência dos sintomas relativos às demasias.    

 

Tem sido comum encontrar localidades onde quem treina de maneira orientada represente até 50% desse grupo, cuja forma mais recorrente são as assessorias esportivas, modelos organizados para tal atendimento, onde a segurança de uma sistematização supostamente especializada somada à prevenção de lesões correspondem a 40% dos motivos pela contratação do serviço.                 

 

Índice de Lesões

Alguns estudos encontrados na literatura, para o grupo de treinados sob orientação, merecem atenção no quesito lesões, pois seus achados contrariam as expectativas. Supostamente, se não todas, a grande maioria das pesquisas consideram o percentual de indivíduos lesionados em determinado grupo durante um período de tempo, geralmente alguns meses, ou por todo o seu trajeto esportivo; muitas descartam os iniciantes e nenhuma analisou o percentual de corredores lesionados ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo em diferentes períodos de uma temporada.     

Temos assim, 3 situações decorrentes:

 

1- Índices de lesão que iniciam altos e vão se elevando, até atingir os 100%, quando considerado um médio e um longo prazo respectivamente para a análise. Acontece que, grupos que primam pela performance, submetidos quase sempre aos limites, no caso dos atletas corredores profissionais, ou grupos de amadores com boa parte dos integrantes visando alguma performance em alguns períodos, o que tem sido comum, analisados por um longo período de tempo quanto ao acometimento por lesões, serão, por um levantamento não bem aprofundado, por isso não necessariamente alarmante, facilmente enquadrados nos altos índices.

 

2- Metodologias por dados coletados em eventos descartaram muitos indivíduos iniciantes, e metodologias que consideraram somente indivíduos previamente treinados, descartaram os muito iniciantes, e em ambos os casos perdeu-se a possibilidade de analisar os índices de lesões neste importante extrato das assessorias, o qual experimenta a expertise do trabalho de orientação quanto aos vários tipos de adaptações aluno/estímulos e administração dos eventuais desequilíbrios preexistentes.

 

3- A análise dos índices de lesões, ou, do percentual de lesionados ao mesmo tempo em alguns pontos estratégicos da periodização do treinamento durante a temporada, poderá revelar o nível de adequação da aplicação de estímulos de diferentes naturezas, volume ou intensidade, ou seja, das mudanças de treinos, um importante fator quanto à geração de lesões.  

 

Via de regra, as lesões têm estreita ligação com volume, intensidade e mudança de treinos. Até mesmo as estruturas esportivas abundantes em recursos com intervenções multidisciplinares permanentes sobre o aspecto lesões, somente conseguem minimizar e nunca zerar o número de lesões de seus atletas, porque na maioria dos casos isso é inerente aos treinamentos. Algum grau de imperícia com que são aplicados os treinos deve ser considerado, sobretudo quanto menor a experiência do responsável técnico.

 

Desta forma, pode-se relativizar com outro olhar o que seja baixo ou alto índice de lesões. Adotemos 3 grupos: o primeiro, com vários anos em atividade, preparando atletas para alta performance, experimentados e em formação, analisados em toda a sua carreira, mostrando um índice de lesões de 100%, ou, todos os atletas se lesionaram em algum momento.

 

O segundo: uma assessoria com trabalho misto de performance e saúde onde os atletas/alunos foram analisados nos últimos 12 meses, revelando um índice de 50% de lesões.

 

O terceiro: uma assessoria de orientação direcionada à saúde e sem expectativas quanto à performance, onde nos últimos 6 meses, coletados os dados a cada 8 semanas, verificou-se um índice médio de 10% de lesões.

 

Apesar do terceiro grupo teoricamente não ter abusado de volume ou intensidade, características voltadas ao alto desempenho, uma constante de 10% de lesionados ao mesmo tempo em vários períodos da preparação, pode ser considerado fruto de um trabalho muito pior quando comparado aos 50% e aos 100% dos grupos 2 e 1.

Quando menos pode ser mais; é assim que, dependendo da análise, 10% pode ser pior do que 100% de lesionados.

A diluição de vários lesionados ao longo da preparação pode revelar mais sobre a natureza da agressividade dos estímulos; o risco inerente, enquanto que a recorrente concentração de lesionados certamente irá revelar muito sobre a imperícia na aplicação do processo de treinos.

 

A preocupação sobre as lesões em praticantes de corrida de cunho amador procede, sobretudo quando os achados mostram determinados grupos apontando maior incidência sobre os orientados em relação aos mesmos quando não orientados, supondo erros do treinamento direcionado à busca de desempenho em competições, e ainda o afastamento de lesionados por meses do esporte, demarcando circunstancial incompetência da orientação.

 

Alcance de Resultados

Entende-se por resultados advindos da prática da corrida, a consecução do objetivo escolhido, ou de vários, podendo os mesmos ser progressivos, conforme se capacita com o passar do tempo, devendo ser individualizados e exequíveis, pois, opções desproporcionais, que não observam o estado atual de condicionamento ou a predisposição genética, estarão condenadas ao fracasso com eventuais prejuízos.

 

Propostas resultando no abandono da prática, muitas vezes com traumas emocionais pela sensação de derrota por não atingir sequer de longe uma meta, não são necessariamente filhas da incapacidade, e sim de más escolhas, da adoção de métodos equivocados de treinos ou da pressa.

 

O objetivo a se atingir depende de boas metas e estratégias. Pode ser de diversas naturezas: a manutenção ou regularização de indicadores de saúde, bem estar físico/emocional, alívio do estresse, estética, ou busca pelo desempenho podendo ser mutável, interligado a outros ou escalável no caso da performance.

 

As metas e estratégias por sua vez, são um conjunto de ações facilitadoras e sem estas, dificilmente um objetivo se cumprirá. Por exemplo: a conquista por uma melhor composição corporal ou emagrecimento, em muitos casos dependerá, além dos treinos, do investimento em uma dieta alimentar; e a perseguição por melhora nos tempos das distâncias competitivas, deve considerar provas preparatórias e periodização individualizada.

Fontes:

Adriano Akira Ferreira Hino e outros

Rev Bras Med Esporte – Vol. 15, No 1 – Jan/Fev, 2009

Alberto Cantídio Ferreira e outros

Rev Bras Med Esporte – Vol. 18, No 4 – Jul/Ago, 2012

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