Perfil

Adauto Donizete Domingues | Meio Fundista, Atleta Olímpico | Treinador

Nascimento - 20/05/1961 | São Caetano do Sul/SP

Formação - Educação Física | Treinador Nível 5 IAAF 

Clubes & Cias - Patrulheiros Mirins de São Caetano | SESI de Santo André | USP/Xerox | BM&F/Pão de Açúcar | B3

O ATLETA

Adauto Domingues dispensa apresentações no atletismo brasileiro e até mesmo internacionalmente, e basta dizer que foi treinador do maratonista Marílson dos Santos e pronto; o assunto está resolvido também entre boa parte dos praticantes amadores da corrida.

 

O que trazemos aqui tenta retratar o resumo do todo: o conjunto da obra de Adauto como atleta que foi e treinador que é; de extensão e relevância em ambos os contextos, que independentemente do destaque obtido com um atleta, ele já teria luz própria.

 

Adauto iniciou cedo no atletismo juntamente com seu irmão nos Patrulheiros Mirins de São Caetano do Sul com a marcha atlética, mas logo passou a dedicar-se às corridas, participando de muitas provas e em variadas distâncias, tantas que aos 18 anos já tinha uns 300 troféus em casa, e em 1982 veio o primeiro resultado importante; foi segundo colocado nos 1.500m do Troféu Brasil de Atletismo, numa época em que a prova era concorrida por vários grandes atletas.     

 

Na década de 80 o então atleta especializou-se nas provas de média distância, porém mostrou rara aptidão também nas de resistência, então dos 1.500m aos 5.000m, inclusive e sobretudo nos 3.000m com obstáculos, onde iniciou por acaso e ganhou o Troféu Brasil por 7 vezes seguidas (de 83 a 89), ou dos 10.000m até a meia maratona que marcou 1h02’50”, passando pelos 12 a 13 km da São Silvestre na época, com 15 participações e 4 pódios, sem perder por 10 anos seguidos no Brasil dentro da sua especialidade, onde o atleta competia era problema na certa aos concorrentes. Estrategista em provas como poucos, não dá pra falar do atleta Adauto sem citar hegemonia, versatilidade e competência.

 

O irmão de Adauto, Ademir Domingues, também mostrou a que veio, ao optar permanecer competindo na Marcha Atlética nos Patrulheiros, depois defendendo o Clube Atlético Pirelli na década de 80, e o restante da sua carreira esportiva passou para o Sesi de São Caetano do Sul, quando treinando sempre muito pouco para sua especialidade, a exigente prova dos 50 km, ainda conseguiu estabelecer a respeitável marca de 4h09’03” em 1993, índice técnico com o qual participou do mundial de atletismo em Stuttgart no mesmo ano.   

 

As décadas de 80 e 90 corresponderam à época promissora do atletismo nacional, de uma enorme fertilidade de nomes fortes com suas performances altamente relevantes, com centenas de participantes nas provas de velocidade e de saltos, com a pista tomada também para os outros grupos de provas, com vários atletas de alto nível em muitas especialidades, quando havia sempre dois ou três grandes clubes brigando seriamente pelo título do Troféu Brasil, e logo aqueles que almejavam se posicionar entre os 10 melhores, e depois tantos outros.

 

Nesse panorama, cada ponto marcado pelo atleta segundo a classificação em sua prova era seriamente disputado, e se, o Grêmio Esportivo do SESI de Santo André conquistou com três vitórias (de 1984 a 1989) o VIII Troféu Brasil de clubes, Adauto foi dos seus maiores protagonistas, ao competir por algumas vezes em 03 provas: 1.500m, 3.000m com obstáculos e 5.000m; no auge vencendo todas elas, com recorde do campeonato para as duas primeiras, o que provia em torno de 50 pontos, o equivalente à pontuação de 07 atletas medianos, perto dos 15% dos pontos totais conquistados pela equipe; ele sozinho representava 03 excelentes atletas competidores de uma prova só.

 

Se, uma das características do esporte é o espetáculo, o Atleta tinha o seu em quase todos os finais de prova chegando a marcar espantosos 24” nos 200m finais da prova de 5.000 metros. Um sprint assim em fase terminal de prova é dado a poucos fundistas, com particular combinação de certas fibras musculares mais a capacidade de mobilizá-las, de modo que, quando vinha um bloco de atletas decidindo uma prova na última volta na pista e dentre eles Adauto em forma, era quase impossível superá-lo e mais, chegava com muitos metros de distância dos adversários; era um show à parte dentro do evento, e a torcida geralmente de muitos atletas de outras provas fazia questão de vê-lo competir, quando se ouvia o comentário aos finais de suas provas: “lá vem ele”, e vinha, cheio de amplitude como um gigante, e todos já sabiam o que esperar.   

Desfile de abertura dos Jogos Pan-americanos de Havana 1991

O Quadro a Seguir Mostra as Principais Participações e Conquistas do Atleta

*Recorde brasileiro

O TREINADOR

Em 1992 o ainda atleta e já formado em Educação Física Adauto foi convidado a cuidar do grupo de jovens atletas especialistas em 800m, 1.500m e 3.000m com obstáculos e realizava seus treinamentos com outro grupo, pelo qual logo se tornaria também o responsável técnico cujos destaques eram os jovens ainda potencial Marílson dos Santos e Clodoaldo Gomes, até que em 1996 passou a atuar somente com treinador, e fez questão de chegar ao nível 5, a maior graduação de formação para treinadores da IAAF - Associação Internacional de Federações de Atletismo.

 

A condição de pós-atleta de elite trouxe uma imensa bagagem à condição do treinador, onde a facilidade de interpretar as forças e fraquezas de cada atleta treinado por ele, direcionando e concentrando atenção às questões necessárias de cada preparação sob sua responsabilidade e tão acostumado aos pódios, sempre soube o caminho como enviar para lá, e assim foram surgindo seus campeões. 

 

Abaixo, os principais atletas sob a orientação deste treinador, com suas vitórias importantes, marcas expressivas, medalhas Pan-americanas e Sul-americanas, e participações olímpicas, o que nos revela toda a qualidade do seu trabalho:

 

- Marílson Gomes dos Santos: três vitórias na São Silvestre (2003, 2005 e 2010) e duas vitórias na maratona de Nova York (2006 e 2008), atleta olímpico em 2008, 2012 e 2016;

- Juliana Gomes dos Santos: campeã Pan-americana dos 1.500 em 2007, dos 5.000m em 2015 e recordista Sul-americana dos 3.000 com obstáculos em 2016, atleta olímpica em 2016;

- Clodoaldo Gomes da Silva: campeão mundial juvenil de 20 km em 1994 e vice-campeão da São Silvestre em 2006;

Os marchadores de 50 km:

- Mário José dos Santos Jr.: medalha de prata nos jogos Pan-americanos em 2003,      atleta olímpico em 2004, 2008 e 2016;

- Jonathan Riekmann: atleta olímpico em 2016.

 

Dentre as principais atividades como treinador, Adauto manteve uma assessoria esportiva para corredores de rua, cuidou de jovens iniciantes em escola de atletismo, atuou num belo projeto de equipe de atletismo de iniciativa privada junto à USP, foi um dos treinadores da principal equipe brasileira de atletismo, já foi comentarista em programa esportivo de TV para grandes eventos de atletismo, palestrante e formador de treinadores de atletismo pela IAAF na região Sul-americana, e atualmente treina vários atletas de elite e ministra cursos on-line para a formação de treinadores, especialmente de Corrida de Rua.

O quadro que segue revela a extensa lista de competições do mais alto nível, às quais Adauto foi convocado como treinador pela CBAt - Confederação Brasileira de Atletismo ou pelo COB - Comitê Olímpico Brasileiro, mas, além dessas delegações participou de outras tantas acompanhando seus atletas.

CCorrida: Mesmo que com tantas conquistas, existiu alguma meta que gostaria de ter alcançado como atleta, e ou existe uma meta ainda a ser atingida na carreira de treinador?

Adauto: Assim como a maioria dos atletas eu tinha uma meta:  de ir à Olimpíada. Quando você participa, como eu fui em Seul, fica o sonho da medalha; primeiro tinha como atleta e depois como treinador, e o sonho continua...

 

CCorrida: Você poderia ter sido muito melhor como atleta, dadas as eventuais carências estruturais e ou de informação da época?...E como treinador, você tem condições ideais para produzir campeões?

Adauto: Sim, acredito que sim, pois conhecendo mais de treinamento sei que podia ter feito outros trabalhos, criado mais situações para poder competir mais vezes com os melhores. Como treinador, na época da B3 (Clube B3 Atletismo, mantido pela BM&F, maior e mais bem estruturado clube de atletismo que já houve no país) tinha uma condição mais próxima do ideal, agora estamos nos reinventando para seguir com o trabalho.

CCorrida: Sobre a base do teu trabalho, para a elaboração dos treinamentos que aplica, você tem como referência a metodologia de alguma (s) escola (s) de meio fundo e fundo em particular?

Adauto: Na verdade hoje faço um apanhado de muitos treinadores e escola e vou filtrando o que me interessa, mas tenho uma maior porcentagem de trabalho baseado na escola espanhola.

 

CCorrida: Há duas décadas, o contingente de atletas fundistas e meio fundistas de elite era maior, assim como a média de sua performance...Quais fatores contribuíram para tal involução?

Adauto: Isso é um fenômeno mundial, não acontece só no Brasil; veja Portugal, Espanha, Itália e por aí vai...pra nós especificamente, vejo a forma como criamos e desenvolvemos nossos jovens na infância e adolescência, cada vez eles se mexem menos e perdemos um bom momento da vida para o desenvolvimento e crescimento destes jovens e oferecemos a eles cada vez menos oportunidade de praticar movimentos naturais.

Está resposta depois podemos completar no nosso bate papo

 

CCorrida: O atletismo nacional já foi referência quando se tratava de altíssima performance ou medalhas olímpicas e mundiais para as modalidades individuais, mas, não obstante os investimentos estatais na modalidade, ficou para trás não só de uma, mas de várias modalidades individuais, como a natação, judô, boxe e canoagem, que evoluíram...Na sua opinião, porque não crescemos também?

Adauto: Eu acho que estávamos muito atrás e torcendo para um talento excepcional aparecer, acho até que melhoramos sim com mais atletas em finais, maior número de grupos de provas não só de velocidade, mas também acho que perdemos o “time” (tempo), e o dinheiro da Olimpíada só com quem estava com alguma chance de uma possível medalha, e faltou utilizar este dinheiro com os atletas que estariam no ciclo de 8 ou 12 anos depois do Rio.

 

CCorrida: Assuntos delicados no atletismo como, doping e fraude, às vezes têm que ser discutidos e resolvidos. Sobre especialização precoce no Brasil, você tem algo a ponderar?

Adauto: Doping é uma praga que precisa ser combatida, vou sempre pensar assim. Quanto à especialização precoce acho o tema mais delicado; quando o Joaquim (Joaquim Carvalho Cruz, campeão olímpico em 1984 e medalha de prata em 1988 na prova dos 800m) apareceu disseram que o Luiz (Luiz Alberto de Oliveira, treinador) estava “matando” o garoto e que não duraria 3 anos, veja onde ele chegou. Tenho vários exemplos de outros atletas que pintaram bem no infantil não deram certo, e aí disseram que foi um trabalho precoce que “matou” o atleta; depois de algum tempo fico imaginando, será que este garoto era talento mesmo ou era o atleta que tinha um desenvolvimento (uma idade fisiológica já adiantada).

Mas concordo que para as provas de fundo principalmente, é possível fazer o atleta melhorar no infantil sem precisar de grandes rodagens e sessões de tiros extenuantes.

 

CCorrida: As corridas de rua de antigamente, basicamente de atletas e aspirantes, abriram o campo para o modelo presente, de massificação com viés na saúde e qualidade de vida, suprimindo o modelo original, o que tem prejudicado os atletas profissionais.

Você enxerga alguma forma para que a categoria dos amadores possa beneficiar a dos profissionais?

Adauto: Eu sempre acho que a corrida de rua não é o vilão da história; alguns treinadores e atletas não conseguem utilizar as corridas a seu favor e acabam exagerando na dose, fazendo com que as corridas os prejudiquem. Veja bem, nenhum fundista bom e conhecido começou na pista, todos começaram na rua, na prova de bairro perto de sua casa; é ali que terão o primeiro contato com as corridas.

 

CCorrida: Tem sido comum a grande quantidade de amadores levando a competitividade muito a sério...Qual seu ponto de vista sobre isso?

Adauto: Normal...a competição faz parte da essência do ser humano; o papel do treinador é de incentivar, ou se for preciso, pisar no freio deste atleta amador.

 

CCorrida: Poderia deixar suas mensagens; à enorme quantidade de corredores amadores e também aos treinadores iniciantes?

Adauto: Continuem a treinar e competir...o mundo das corridas é maravilhoso e os benefícios orgânicos são enormes, e pra motivar, coloquem pequenas metas sim, pra evitar aquela acomodação de alguns.

 

 

Fontes:

http://www.cbat.org.br/novo/

https://soesporte.com.br/

http://www.cassilandianoticias.com.br/ultimas-noticias/saiba-detalhes-de-todas-provas-da-sao-silvestre

https://www.superesportes.com.br/app/19,66/2014/12/31/noticia_maisesportes,59340/atleta-de-brasilia-clodoaldo-gomes-da-silva-se-despede-da-sao-silvestre.shtml

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